Um dia com o padre Tiago

O dia começava às três e meia da madrugada e terminava às nove e meia da noite. As primeiras atividades eram a oração, a missa, as confissões e as meditações que propunha aos grupos.

A respeito do nosso fundador, o bem-aventurado Tiago Alberione, contarei fatos inéditos dos quais fui espectador. Tive a sorte de estar próximo dele e a seu serviço direto por muitos anos. A seu respeito diria, antes de tudo: foi um homem de Deus. Nunca parou, nunca correu, sempre caminhou. Foi um vulcão calmo em constante erupção. Eu o conheci em 4 de novembro de 1924. Foi quando meu primo, Felice Stevezzoli, e eu chegamos à Alba para me encaminhar à vida sacerdotal e paulina. Não compreendia o verdadeiro significado da vida paulina: a mim interessava ser apenas sacerdote.

A primeira impressão que tive do padre Tiago, nosso Primeiro Mestre, foi a de um tuberculoso. Era magro e amarelo como as vítimas daquele mal que não perdoava. Não me enganei. Naqueles dias, padre Tiago acabava de sair daquela enfermidade, curado com evidente intervenção de Deus. Levava a vida com seriedade e como um compromisso que não se delega. Para ele, querendo ou não, agrade ou não, o que Deus quer era para ser feito! O que Deus estabeleceu devia se realizar! Por isso, padre Tiago trabalhou muito. Rezou muitas horas por dia. Reduziu o descanso e jejuou sem compadecer-se do seu pobre corpo, que não era com certeza o de um atleta! Talvez tenha sido justamente esse comportamento que o levou à doença e quase ao túmulo.

Por alguns meses, teve de se afastar das atividades e de quem havia reunido. A doença foi superada e produziu nele o efeito de fazê-lo entender que, para trabalhar no campo do Senhor, são necessárias pessoas sadias. É preciso alimentar-se, cuidar-se, descansar e conceder-se, também, repouso.

Ainda que tenha continuado a ser exigente consigo mesmo, teve a prudência de não deixar faltar para si os indispensáveis alimento, cuidado e repouso. E a sabedoria de não impor penitências, jejuns ou privações a seus filhos e filhas! “Quem não come não poderá jamais ser um bom paulino! A vossa penitência será estudar com empenho, rezar com fervor e atender ao apostolado com todas as forças, com a inteligência e com o zelo de São Paulo” – aconselhava.

Não perdia tempo! O dia começava às três e meia da madrugada e terminava às nove e meia da noite. As primeiras atividades eram a oração, a missa, as confissões e as meditações que propunha aos grupos. Às sete horas, ia para o escritório depois de ter tomado uma xícara de café forte e comer um pedaço de pão com manteiga. Aprontava a correspondência, recebia quem quer que se apresentasse para lhe falar, cuidava dos pagamentos mais urgentes, dos negócios de apostolado que requeriam maior atenção. E a tudo quanto dizia respeito: as velhas e as novas iniciativas!

Pontual ao almoço, iniciava sempre com a reza do Ângelus. Ao fim, após breve conversa com alguns presentes, ia descansar por cerca de meia hora. Depois retomava a oração, o atendimento dos compromissos e, por muitos anos, dedicou-se também ao ensino, sempre observando a máxima pontualidade para o início e término das aulas.

Nas audiências, se pudesse exprimir-se com 20 palavras não dizia 21… Fixava-se na substância dos argumentos, na clareza das ideias, na realização prática dos problemas. “Poucas palavras e muitos fatos, fatos e não palavras, soluções dos problemas e não objeções. Façamos o bem, hoje, imediatamente, como se pode. O melhor, faremos amanhã” – dizia.

Da mesma forma que não perdia tempo também não fazia ninguém perdê-lo! Principalmente os que ocupavam cargos de responsabilidade e tinham outros encargos. Quando vinha visitar nossas casas – as suas eram relâmpago –, eu o convidava a visitar o bispo da cidade. “Os bispos têm tantos compromissos e deveres que fazê-los perder tempo com simples saudações ou cumprimentos é tornar-se responsável pelo bem que nunca mais será realizado” – respondia. “Não compreendo como se possa perder tanto tempo quando há tanto bem a ser feito, tantos socorros a prestar, tantos povos a evangelizar! Por muitas noites, eu não consigo dormir pensando nos pagãos que esperam de nós a palavra da verdade, os meios de salvação! E nós somos tão preguiçosos e indolentes” – completava. Os preguiçosos e indolentes eram muitos outros. Mas não ele, com certeza.

* Texto extraído do livro Gonoscere Don Alberione, Paoline Edizioni Editore (1982). Tradução: padre Luiz Miguel Duarte. Publicado na Revista Paulinas, edição 40.