Testemunho Vocacional – Ir. Natalia Maccari, fsp

Não foram vocês que me escolheram, fui eu que escolhi vocês. (Jo 15,16)

Minha história vocacional não tem grandes surpresas, tudo aconteceu de um modo muito simples, sentindo Deus que me falava e interpretando os seus sinais.

As manifestações da vocação religiosa começaram muito cedo. Por ser de uma família cristã de fé vivida, livros e revistas religiosas não faltavam em casa, e eu, como toda criança, adorava virar as páginas das revistas. Um dia, com a idade de 3-4 anos, insistia em retornar sempre na página com fotos de religiosas. Então me perguntaram: Por que você gosta desta página? Apontei com o dedinho para a foto de uma irmã e disse mais ou menos isso: “Bonita! Eu essa”. Não sei se foi a originalidade do hábito que me encantou, só sei que essas fotos me atraíam e a ideia de ser como elas foi crescendo dentro de mim.

Eu era ainda criança, não sabia nada de religiosas, mas queria ser uma irmã como aquelas das fotos. Havia somente uma dificuldade: Qual seria a congregação?  A situação agora era séria, não bastava gostar do hábito, Deus tinha um plano para mim e o sentido da minha vida consistia em realizar este plano.

No meu pequeno mundo de criança existiam alguns problemas:

  • O fato de deixar minha família era algo que eu não suportava e, no entanto, naquela época, as irmãs que eu conhecia não retornavam para visitar a família.
  • Eu não tinha inclinação para trabalhar em hospitais e a maioria das irmãs de minha região trabalhava em hospitais e instituições afins.
  • Eu desejava aprender as coisas de Deus, falar de Jesus, e não conhecia nenhuma congregação que tinha essa missão específica.
  • Além disso, eu era uma leitora fanática, apaixonada por livros, e esta congregação eu não conhecia.

O que fazer? O tempo ia passando e eu não encontrava a congregação adapta. Deus, porém, resolveu o meu problema enviando a congregação à minha casa.

Um dia, sem aviso prévio, sem esperar, duas primas que eu não conhecia, Ester e Tarcila, vieram fazer uma visita à minha família. Eu nem sabia que tinha primas religiosas.  Elas falaram que eram das Filhas de São Paulo, conhecidas como irmãs Paulinas, uma Congregação moderna que tinha por missão anunciar a mensagem de Jesus com os meios de comunicação social e que elas faziam livros, folhetos, revistas; produziam também filmes e programas para rádio…  Elas disseram exatamente o que eu queria ouvir.  Não era necessário esperar mais, “a fome se juntou com a vontade de comer”. Elas realizavam, em grande, aquilo que eu sonhava e já tentava fazer.

Naquele tempo não era fácil adquirir livros, as livrarias era pouquíssimas e não havia internet. Foi então que eu fiz a minha primeira experiência de editor, uma confirmação a mais da minha vocação paulina. Minha mãe era catequista, e nem todas as crianças tinham o famoso Catecismo da doutrina cristã.  Então, para suprir esta necessidade me veio a ideia: Por que eu mesma não posso fazer os livros?  Era só fazer as cópias com a máquina Royal que minha mãe usava, organizar as páginas e o problema estava resolvido. E assim foi, eu transcorria as tardes fazendo cópias do Catecismo da doutrina cristã para doá-lo às crianças.

Mas não foi tão simples; eu não sabia escrever à máquina, essa era a minha primeira experiência.  Lembro-me de um fato gracioso. Eu era tão inexperiente que pensava que ch fosse uma palavra única e a primeira vez que apareceu um ch eu gritei à minha mãe: Mãe, onde está o ch? Ela me respondeu, filha, você está dizendo: c, h. E eu insistia, mas onde está a tecla do ch? E continuava perguntando e ela respondendo, até que eu atinei.  Essa foi a minha primeira aventura de editor.

Depois do encontro com as primas eu não tinha dúvida: eu seria uma irmã paulina para anunciar a todos a mensagem de Jesus com os meios de comunicação mais modernos e eficazes. Trocar uma simples máquina Royal por grandes rotativas e algumas cópias por milhares e milhares de edições.

Quando isso aconteceu eu tinha uns 8-9 anos, devia esperar ainda alguns anos, pois só poderia entrar na congregação das Irmãs Paulinas com doze anos. Minha mãe estava feliz, mas meu pai não concordava. Depois, porém ele se convenceu. Sabem por quê?  Porque lhe diziam: “Não se preocupe Doro, depois de uma semana ela está de volta. ”

Naquela época, eu não sabia o que me esperava na vida religiosa. De fato, os primeiros meses foram terríveis, chorava todos os dias de saudades e me lembro de ter escrito várias vezes, pedindo a meus pais para virem me buscar. Era estranho! Eles respondiam as cartas, mas não acenavam ao meu pedido. Após seis meses, quando já havia passado a crise eles vieram me visitar e disseram-me que nunca haviam recebido meus pedidos de voltar para casa. Muitos anos depois, quando eu mesma fui envolvida na formação, soube que (naquele tempo) as mestras liam as cartas das aspirantes antes de enviá-las e, conhecendo essas reações do início, faziam pequenas adaptações para o bem da jovem vocacionada. E graças a essa astúcia minha vocação foi salva.

Os anos foram passando e eu fui crescendo nesta maravilhosa vocação de comunicar a todos a mensagem de Jesus, não só com os livros, mas com todos os meios que o progresso humano oferece: livros, revistas, filmes, televisão, rádio, internet, redes sociais e particularmente com o meu testemunho de vida consagrada a Deus e ao povo.

E hoje, com 60 anos de vida religiosa sempre mais eu constato que a vocação é um dom precioso, um dom que cresce na medida em que é doado. Não quero afirmar que é tudo um mar de rosas, há períodos luminosos de realizações, conquistas, crescimento pessoal e maravilhosas aventuras apostólicas, mas, como tempero e impulso, existem também crises, sofrimentos, momentos difíceis, altos e baixos.  Nunca, porém duvidei da fidelidade de Deus e da minha vocação.

Quem previu que eu ficaria no convento só uma semana errou de feio.  Tudo eu agradeço a Deus, à minha família e as pessoas maravilhosas que Deus colocou no meu caminho. A todos o meu afeto e a minha gratidão.

Natalia Maccari, fsp