Testemunho da Irmã Liria Grade, missionária Paulina em Boston

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Um pouco sobre o chamado vocacional:

Fui criada em uma comunidade do interior do Paraná onde participava do Culto dominical, pois não havia missa. Esta era celebrada só algumas vezes no ano. Eu gostava e, lembro com carinho, era que durante a semana nós ensaiávamos as leituras e as preces para serem lidas no domingo, quem nos ajudava era nossa professora e como gostávamos dessa responsabilidade, até hoje lembro com saudades do que aprendi naquele tempo.

Nossa vida sempre foi muito simples, sou filha de pais agricultores, tenho nove irmãos, trabalhávamos na roça e estudávamos na cidade que fica a uns 5 Km, trajeto que todos os dias fazia a pé para chegar à escola. Com quinze anos minha mãe solicitou que eu desse catequese, foi quando comecei a participar mais ainda da comunidade e do grupo de jovens. Nosso grupo de jovens se reunia aos sábados e, uma das atividades que gostávamos de fazer era visitar outras comunidades para jogar vôlei, além dos encontros para reflexão. Era muito bom. O grupo que recebia a visita, devolvia a mesma para a comunidade visitadora.

Entre estudo, trabalho e comunidade não me passava pela cabeça ser freira, aliás, eu nem conhecia muito bem a vida das irmãs. Comecei a conhecer melhor quando as Irmãs de Nossa Senhora de Lourdes começaram a fazer parte da comunidade, e uma das irmãs, sempre convidada para ser freira, mas eu dizia que não era isso que eu queria, pois tinha namorado, e sonhava em ir para a Aeronáutica, ser capitã do ar. Tanto é que fiz a inscrição, só que era longe, a prova seria em São Paulo, foi quando desisti. Mas ser religiosa ainda não estava em meus planos.

Comecei a participar ainda mais da comunidade, a ponto de não ter mais muito tempo para outras atividades como o vôlei e outros compromissos. Um belo dia algumas irmãs Paulinas visitavam a região e foram se hospedar na casa da mãe de uma irmã Paulina que mora próximo de nossa casa. Vi uma delas tão feliz, tinha um sorriso lindo e constatei: se ela é feliz, posso seguir esse caminho e ser também. Mas nesse dia, quem falava em ser freira, era minha irmã. Eu fiquei apenas ouvindo, foi quando uma das irmãs falou sobre o um trecho do Evangelho que diz: Olha a trave que está no teu olho para depois tirar a trave do olho de teu irmão. Isso ficou dentro de mim.  Pois eu trabalhava com a juventude, crianças, adolescentes e muitas vezes dizia que eles não querem nada. Foi quando me dei conta que eu mesma não sabia o que queria da vida. Foi a partir desse momento que comecei a pensar na possibilidade de ser freira. Continuava com as atividades na paróquia e, certo dia estava na Igreja, arrumando um mural, quando me dei conta que eu era feliz fazendo todo tipo de trabalho na comunidade porque não dedicar toda a vida para esse fim. Essa resposta trouxe muita alegria e paz, foi quando no ano seguinte escrevi para as irmãs Paulinas e hoje estou aqui. Tive muitas dificuldades na caminhada vocacional e a maior foi quando meu pai disse que não queria ver a filha sendo freira e, quando sai de casa ele não se despediu de mim. Depois de um longo caminho, hoje ele  compreende a opção que fiz e é feliz porque me vê feliz no caminho escolhido para seguir Jesus. 

As motivações que sustentam a caminhada vocacional

Sinto-me filha querida de Deus e, com tal desejo, sempre, por tanto amor, continuar respondendo ao chamado que ele me faz, alimentando-me da Palavra de Deus da Eucaristia e do serviço incansável ao povo de Deus, onde precisarem de mim é só comunicar. Aqui estou. Sinto-me amada, eleita, escolhida e tudo de bom que Deus pode querer para seus filhos (as). Desejo todos os dias responder a tão grande amor.

 Por que escolheu a vida consagrada Paulina?

Escolhi pela missão, a espiritualidade aprendi e vi depois que entrei na congregação. A missão, especialmente, com os livros, pois onde morava tinha bem poucos livros e eu gosto de ler, tanto é que eu e minha irmã Marlene Grade lemos todos os livros da biblioteca da cidade. Ao ver tantos livros, pensei: gosto tanto de ler, tenho certeza que mais gente gosta e não tem oportunidade, é preciso chegar até eles. Também era um jeito diferente de seguir Jesus, para mim, totalmente novo. Freiras que trabalham em livrarias, produzem, escrevem, embora me sentisse pequena diante de tão grande missão, ao mesmo tempo, me sentia atraída a fazer o bem desse modo.

Missão nos Estados Unidos?

Quando recebi a carta da superiora geral, Irmã Antonieta Bruscatto, perguntando se gostaria de fazer a experiência com a missão em outro país. Fiquei surpresa não pelo convite de ir a outro país, mas este ser os Estado Unidos, pois nunca imaginei que seria um país de missão.

Hoje fazem mais de 3 anos  que moro em Boston, ma, faço parte da província da América, nossa missão é com os Brasileiros, Cabo Verdianos e Portugueses. Embora nossa missão atenda mais a comunidade brasileira. Temos a livraria Paulina e também atendemos aos pedidos de formação nas áreas de catequese, bíblica e outras necessidades das comunidades.

A grande maioria dos imigrantes estão ilegalmente no país, mas conseguem trabalhar, ter sua casa, carro e tudo o que o país pode lhe oferecer. São pessoas que trabalham muito, são generosos e solidários com quem precisa. Um povo que muitas vezes não participava muito de sua comunidade quando estava no Brasil e quando chegaram encontraram espaço para partilhar a vida na comunidade.

A vida da comunidade é o espaço do encontro, troca de experiência, ajuda mútua, troca de informações. Lugar do convívio espantar a solidão, falar a mesma língua sentir-se em casa.

Não são comunidades fáceis de se lidar, os desafios são grandes, formar paróquia com as pessoas que vieram das mais diferentes experiências de fé, de muitas paróquias do Brasil, mas especialmente Minas Gerais, com sua maneira de celebrar e pensar, chegar a um pais novo, com outra cultura, outro modo de ser e celebrar e aqui formar um nova paróquia onde o espaço é partilhado com outras etnias, torna-se sempre um grande desafio para todos. Muitas vezes temos em uma paróquia a missa em quatro idiomas: Inglês, português, espanhol, italiano.

O belo também é que a Arquidiocese de Boston permite que cada grupo étnico celebre em seu idioma e respeita a cultura e sua maneira de celebrar. Para isso faz um esforço enorme para que padres possam atender as necessidades de cada grupo.