Juventude: sacramento da sociedade

A juventude é o sacramento da sociedade. Afirmação provocante. À primeira vista, parece profanação de um termo sagrado que a teologia reserva para as realidades mais significativas da vida do cristão. O catecismo ensina-nos que existem sete sacramentos. Os teólogos chamam a Igreja de sacramento raiz, do qual os sete sacramentos arrancam seu significado. Por sua vez, Jesus é chamado de sacramento fundamental.

Que tem a ver tudo isso com a nossa afirmação inicial de que a juventude é o sacramento da sociedade? Recuando ao significado-base do termo, encontraremos luz para responder à pergunta.

Vamos inspirar-nos no grande teólogo medieval Tomás de Aquino (1225-1274). Antes de tudo, ele diz que sacramento pertence ao gênero do sinal (SummaTheologica III, questão 60, artigo I). Já temos uma ótima informação. A juventude é um sinal da sociedade. O sinal é uma realidade visível que aponta para uma outra invisível. Vejo um pano com determinadas cores e entendo que é a bandeira de determinado país.

Vejo o jovem e entendo a sociedade. Por que é ele este sinal mais claro da sociedade? Não somos todos igualmente sinais da sociedade? Qual a razão deste privilégio?

A sociedade define-se na sua qualidade humana pela maior ou menor riqueza de relações humanas. Uma sociedade é humanamente avançada não por causa de sua alta tecnologia, conforme a ideologia cientificista a pensa, mas pela qualidade das relações que as pessoas alimentam entre si. Assim, uma tribo indígena pode ser muito mais humana que um bairro de Tóquio.

Qual é o segmento etário da sociedade que revela a maior ou menor capacidade de relacionamento de uma sociedade? A juventude. Se os jovens se isolam na solidão de seu egoísmo, é sinal de que esta sociedade está doente. Se eles, por sua vez, estão a criar sempre novos laços de amizade, apontam para um veio sadio da sociedade. Portanto, os jovens são o sinal da sociedade.

Santo Tomás vai longe na sua reflexão sobre sacramento. Diz que o sacramento é um sinal que recorda o passado, indica o presente e anuncia o futuro (S. Th. III, q. 60, a. 3). Tomando o exemplo da Eucaristia, fica claro o que quer dizer. A Celebração Eucarística recorda a vida, paixão, morte e ressurreição de Jesus. Recapitula toda a vida de Jesus. Indica, aponta para o presente da presença real de Jesus no meio da comunidade que celebra. Anuncia a futura comunhão de toda a comunidade na plenitude da vida.

Voltemos ao nosso tema. Como os jovens recordam o passado da sociedade? Como eles apontam para o seu presente? Como eles anunciam o seu futuro?

Recordam o passado porque carregam na sua vida, no seu ânimo, nos seus ideais, na sua psicologia as experiências com que os seus antepassados os marcaram. Eles são fruto das gerações anteriores, mais do que se imagina. Carrega a apatia ou o medo de compromisso de seus pais.

A juventude aponta para o presente. Com seu comportamento, os jovens estão a revelar a dupla face da atual sociedade, seus ideais como suas fraquezas. São a temperatura do corpo social. Se estão febris de entusiasmo, de iniciativas, é sinal de que a sociedade está viva, batalhada internamente por inquietantes germes de novidade. Se, de outro lado, revelam a frieza cadavérica, é sinal de que a sociedade está morta em seus projetos ou simplesmente vegeta na acomodação. Finalmente os jovens anunciam a sociedade futura. Podem ultrapassar o presente porque têm a capacidade de sonhar. E, ao sonhar, criam o que não existe. Antecipam em seus projetos, em seus anseios, em suas buscas as estruturas sociais que amanhã serão a sociedade.

Todo sacramento merece respeito, amor, carinho e cultivo. Este é o chamado que a Igreja faz a todos. Primeiro aos jovens, para que saibam confiar neles mesmos. Depois a nós todos.

(Texto extraído das pp. 11-14 do Livro “Juventude, seu tempo é agora” do Pe. J. B. Libânio, SJ – Editora Ave-Maria)