Dom da Terra e Aliança com Deus: relação a partir do livro de Josué

Estamos concluindo o mês de setembro, no qual comemoramos o mês da Bíblia. A temática abordada neste período foi extraída do livro de Josué. Para melhor conhecermos este livro, trazemos aqui a relação estabelecida entre a terra, compreendida como dom de Deus garantido a partir da fidelidade do povo à Aliança com o Deus criador. Como será que esta fidelidade à Aliança com Deus poderia nos ajudar a combater as injustiças que presenciamos nos dias atuais? 

No livro de Josué, em seu discurso final e na organização da confederação das tribos, fica claro que não basta ter a Terra, mas é importante mantê-la por meio da fidelidade à Aliança estabelecida com Deus. Para isso, as relações devem ser fundamentadas no amor, na justiça, na igualdade, na fraternidade e, sobretudo, na solidariedade para com o sofrimento do irmão e da irmã. Essa unificação só será possível ao pronunciarem a fé (Js 24) e permanecerem unidos ao redor do Senhor, Deus de Israel. Assim, Js não tem o escopo de fornecer dados históricos sobre a ocupação da terra, mas seu objetivo é catequético, é teológico.

O tema da terra é importante para nós, justamente nesse tempo no qual comemoramos os 200 anos da independência do Brasil, e também nessa realidade pós-pandêmica, se já podemos dizer assim, na qual muitos irmãos perderam suas casas, suas terras, por falta de condições de continuar pagando aluguel; por falta de políticas econômicas que ajudassem os pequenos produtores; pela morte daqueles que sustentavam a família com seu trabalho ou com sua aposentadoria e por tantos fatores que foram agravados pela pandemia. Essa temática nos remete à encíclica Laudato Si’, quando o Papa Francisco nos recorda: “hoje crentes e não crentes estão de acordo que a terra é, essencialmente, uma herança comum cujos frutos devem beneficiar a todos”.[1] Essa visão é complementada pela Carta Encíclica Fratelli tutti, ao afirmar: “nos primeiros séculos da fé cristã, vários sábios desenvolveram um sentido universal em sua reflexão sobre o destino comum dos bens criados.

Isso levou a pensar que, se alguém não tem o necessário para viver com dignidade, é porque outrem está se apropriando do que lhe é devido”.[2] O papa também recorda o que escrevia João Paulo II: “Deus deu a terra a todo o gênero humano, para que ela sustente todos os seus membros, sem excluir nem privilegiar ninguém”.[3] Talvez uma forma de aprofundar esse livro é a de refletir sobre a problemática da terra, um tema tão forte em nosso país. Por outro lado, o estudo desse livro nos recorda que é fácil acusar Deus por nossos problemas, nossos fracassos, o desafio é o de viver em “contínua conversão” e recomeçar, após a tomada de consciência de nossas infidelidades.

 

Irmã Zuleica Silvano, fsp

 

Referências:

[1] FRANCISCO, Papa. Carta encíclica Laudato Si’: sobre o cuidado da Casa Comum. São Paulo: Paulinas, 2015. n. 93.

[2] FRANCISCO, Carta encíclica Fratelli tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. São Paulo: Paulinas, 2020. n. 119.

[3] SÃO JOÃO PAULO II, Papa. Carta encíclica Centesimus Annus: no centenário da Rerum Novarum. 7.ed. São Paulo: Paulinas 2008. n. 31. (Voz do Papa, 126); e FRANCISCO, Carta encíclica Fratelli tutti, n. 120.