Deus falou comigo

“A juventude é a semente de onde brota tudo”, dizia padre Tiago Alberione. E para nós, jovens, não é difícil ver que passamos parte da nossa juventude tentando nos encontrar e só pensando em vestibular, profissões…

Comigo não foi diferente! Confesso que , muitas vezes, em meio a tudo isso acabei me esquecendo dos planos de Deus, e não ouvindo a voz d’Ele que me chamava. Porém, como escutei uma vez: “Deus é insistente e não muda de assunto!”.

Sempre participei da Igreja. Meus pais, Edson Moreira e Maria José Barbosa, sempre incentivaram a mim e às minhas irmãs a participar das atividades da paróquia. Ou melhor, da paróquia Nossa Senhora da Glória, onde fui batizada, e da paróquia de São Raimundo Nonato, onde iniciei a minha caminhada na Vida Cristã, isso tudo em Manaus (AM), onde nasci.

A Palavra – Participava do Grupo Ruah, que tem o Apóstolo Paulo como modelo de evangelizador, e também do Movimento dos Focolares, que tem sua espiritualidade e missão fundamentadas na Palavra e na Eucaristia. Sentia-me feliz e gostava de ser, com eles, a juventude da Igreja, mas ainda não havia encontrado aquilo que, de fato, preenchesse a minha sede de algo mais.

Foi nesses grupos e na experiência com a Palavra, que no meu dia a dia, o comum começou a ter outros significados. Nada mais era por acaso, as realidades ao meu redor – tais como jovens que usavam drogas; outros que cedo se tornaram pais e mães; amigos assassinados por causa da violência – já não eram mais coisas normais ou fatalidades. Em tudo e em todos, eu sentia que Deus me chamava para algo diferente.

Eu estudava no centro da cidade de Manaus e sempre voltava andando para casa. A Paulinas Livraria ficava no caminho, e como algumas pessoas da minha paróquia eram colaboradores de Paulinas, eu sempre os cumprimentava. Desde pequena, já frequentava a Livraria e sentia aquele lugar como se fosse a minha casa. Apesar disso, meu contato com as Irmãs não passava de um sorriso.

O folheto – Em uma dessas visitas, parei para conversar com uma amiga, e uma das colaboradoras Paulinas aproximou-se de mim e me deu um folheto vocacional que dizia: Irmãs Paulinas Missionárias da Palavra. Dei um sorriso sem graça querendo dizer: Fala sério! Você está querendo dizer o que com isso? Perdi a conta de quantas vezes li aquele folheto.

Foi o início de uma inquietação que duraria muito tempo. Então me informaram que no mês de agosto haveria encontros vocacionais aos sábados na Livraria. Fiz minha inscrição sem falar com ninguém, afinal, eu só queria acontecer o que estava acontecendo comigo, eu não era mais a mesma Gizele, e o que eu havia planejado para a minha vida podia esperar.

No encontro, falou-se sobre a vocação dos profetas. Logo houve uma identificação. Na experiência do chamado de Deus a Samuel, Isaias, Jeremias, eu me via! Daquele diante em diante, se tornou claro para mim o chamado de Deus, eu queria ser uma Missionária da Palavra, como li naquele folheto e como naquele momento via Irmã Angela Klidzio, que acabara de se apresentar como Irmã Paulina.

Comecei a manifestar em casa que a vida religiosa me atraía. Minha mãe logo me repreendeu, disse para eu nem pensar nisso, ainda mais ser freira, era loucura! E só me falava do futuro que eu estaria deixando para trás. Pensei: ela tem razão, isso é loucura! Mas, no fundo, eu só precisava de alguém que me entendesse.

Desde então, foram meses de ensaio até procurar Irmã Angela para conversar. Ela, que havia falado tão bem dos profetas, poderia me ajudar. E me ajudou! Iniciei o acompanhamento vocacional naquele mesmo dia, eu não queria mais esperar, eu precisava tomar uma atitude.

O tempo foi passando e minha mãe não concordava e de modo algum me deixaria sair de casa. E eu não tinha coragem de partir, sem que ela me abençoasse.

Mas, Deus conhece o coração da gente. Ele sabia que minha mãe sentia medo de me perder, e eu de deixá-la. Nós duas rezávamos e, em silêncio, pedíamos que Deus e Maria fizessem algu8ma coisa por nós.

A ordem – E não demorou muito. O milagre aconteceu e se chama Nicoly Maria. Tinha apenas dois meses de idade. A mãe de Nicoly, sem condições de cuidar de sua filha recém-nascida, vagava pelas ruas e, parando na Igreja onde minha mãe trabalhava, disse: “Se a senhora não quiser a menina, vou dá-la para a primeira pessoa que passar na rua”. Minha mãe acolheu a criança, levou-a para casa e me disse: “Agora você pode ir, Deus falou comigo”.

Nicoly nasceu no dia 31 de maio, e foi um presente de Nossa Senhora. Ela já tem dez anos e eu tenho 10 anos na Congregação das Irmãs Paulinas. Esse não é só mais um testemunho vocacional, mas um modo de dizer que não adianta tentar ignorar o chamado de Deus. Ele dá a oportunidade de escutá-lo, mas, se mesmo assim, não houver resposta, ele age e mostra que é Deus.

Ir. Gizele Barbosa, fsp