Conversão de São Paulo

Demos um salto bem atrás no tempo. Voltemos aos primeiros anos da era cristã.

Tarso era uma cidade importante da Ásia menor, situada entre as colinas e o mar, à beira da estrada que conduzia a Roma, sede do império, cidade com notáveis tráfegos comerciais. Aqui nasceu Saulo-Paulo.

O ambiente em que o jovem cresce, influencia profundamente a sua personalidade, deixando nele uma marca indelével. A origem de Paulo em uma família de judeus que emigra para Tarso e sua pertença à comunidade judaica da diáspora condicionam seu processo formativo. O aprendizado da língua grega e a abertura ao mundo cultural helenístico, por um lado, estimulam a busca pela própria identidade e, por outro, favorecem o crescimento humano e espiritual no confronto dialógico com um mundo diferente.

Aos 13 anos, Paulo é enviado a Jerusalém, a cidade sagrada, onde passa muitos anos na escola de um grande mestre, Gamaliel, cujos princípios abertos e iluminados ele segue. Em Jerusalém, ele mergulha na herança religiosa judaica, que coloca em seu coração uma grande paixão por Deus. Ele está totalmente absorvido por Deus, quase perdido no mistério divino, e tenta viver os pedidos expressos na Lei com toda coerência – e intransigência. – possível.

Quando encontra o Senhor, na estrada para Damasco, Paulo é, portanto, um judeu realizado. Ele possui tradições, compromisso pessoal, zelo, justiça: um conjunto de bens que lhe é imensamente caro, que muitas vezes enumera com profunda emoção. E ele se “gaba” dessa realidade como um tesouro zeloso que defende e promove com todas as suas forças. Isso explica a luta contra Cristo, sua intolerância para com os cristãos e a necessidade de persegui-los … porque afetaram seu “bem”, desde a raiz.

Mas em Damasco, tudo muda. Caberá ao próprio Paulo, nas suas histórias, contar os caminhos pelos quais o Senhor o conduziu: antes de mais nada, a um total desprendimento daquilo que antes lhe parecia sumamente importante (cf. Fl 3,7-8); depois, a uma visão completamente nova da realidade, que o faz perceber a vida em uma nova perspectiva, a de Cristo. Sob esta luz, tudo parece diferente para ele e de repente ele entende que tudo em sua vida tem que ser refeito. E é surpreendente para ele, constatar que, no momento em que o Ressuscitado o torna consciente do erro de suas opiniões, ele lhe dá confiança chamando-o ao seu serviço, confiando-lhe a sua própria Palavra.

Desde então, ele se tornou um discípulo e apóstolo apaixonado por Jesus Cristo. Fez quatro longas viagens e fundou numerosas comunidades, às quais endereçou cartas que demonstravam o quanto as tinha e como sentia a responsabilidade do seu amadurecimento. Com a sua pregação e os seus escritos realiza a primeira e mais importante inculturação do Evangelho na história.

Paulo é o apóstolo por excelência, figura de todos os tempos, porque encarna as aspirações mais profundas do ser humano, a sua necessidade de transcendência, a sua nostalgia de autenticidade, estabilidade, comunhão. Quem se aproxima de Paulo – superando o obstáculo da aparente dificuldade de seus escritos – descobre antes de tudo um homem forte e determinado, porque se inclina para um único centro: Jesus Cristo; um homem apaixonado, autêntico ao expressar seus sentimentos. Sua linguagem é franca, às vezes pungente, muitas vezes cheia de ternura e, sempre, de profunda participação.

Paulo se preocupa com o outro, com qualquer pessoa. Nenhum obstáculo o impede; nenhuma afiliação étnica, social, religiosa ou de gênero o assusta. Ele cruza todas as diferenças, compartilha, se envolve plenamente, se encarrega do outro, faz “tudo por todos”, sem nunca ceder a compromissos muito fáceis. E, precisamente porque se interessa por todo o homem, não pode deixar de lhe propor – com caridade e respeito – o que constitui a razão da sua felicidade: a fé em Jesus Cristo. Tendo vivido na fronteira entre o mundo judaico e o grego-helenístico, experimentou na sua carne a laceração das divisões e rezou e trabalhou pela unidade, construindo pacientemente a comunhão, uma comunhão que relativiza as diferenças mas as mantém porque, em Cristo, o grego, o livre, o homem conta tanto quanto o manso, o escravo, a mulher… O seu estilo “ecumênico” é uma forte provocação para nós, é um estímulo para cultivar uma mentalidade aberta à diversidade, ao diálogo, ao confronto a todos os níveis, no respeito pelos outros e na caridade.

São Paulo hoje

Pode Paulo agradar aos jovens de hoje? Sim, porque os jovens geralmente se sentem atraídos por aqueles que encarnam grandes ideais, por testemunhas que os abrem para horizontes sem limites e misteriosos. Paulo é um homem ousado, que lutou por aquilo em que acreditava, que sempre se lançou “mais longe”, obedecendo ao poder imperioso do Espírito. Ele também lutou consigo mesmo e foi capaz de confessar suas fraquezas, admitir suas falhas. Acreditou na amizade e na colaboração, no calor que a pertença a uma comunidade pode proporcionar, mas nunca se fechou ao encontro com os “de fora”…

Entrando, com um bom guia, no mundo de Paulo, os jovens se deixarão envolver pela sua personalidade explosiva, pelas suas certezas inabaláveis ​​e, quem sabe, talvez descubram que partilham os seus ideais.

Para concluir, gostaria de mencionar a relação que existe entre nós, Filhas de São Paulo, e o Apóstolo dos Gentios. Pe. Alberione queria que Paulo fosse a “forma” do nosso ser discípulo e apóstolo, imitando sua audácia missionária, seus horizontes universais, sua capacidade de adaptação.

Paulo é para nós a inspiração e o mestre, exemplo de caridade eclesial e pastoral, nossa testemunha de fé, companheiro e exemplar no caminho da cristificação. Constantemente nos referimos a ele para reacender a paixão por Cristo e pela missão.

A referência a São Paulo sustenta em nós o impulso apostólico. A sua paixão: “Tudo faço pelo Evangelho” (1Cor 9,23) e o seu método pastoral: “Fiz-me tudo para todos” (1Cor 9,22), mostram-nos a forma de viver e comunicar Jesus Mestre na cultura de comunicação e identificar novos caminhos apostólicos.

Em 1914, o Bem-aventurado Tiago Alberione, nosso Fundador, citou uma frase usada cerca de um século antes por Mons. Ketteler, arcebispo de Mainz: “Se São Paulo voltasse ao mundo, se tornaria jornalista”. Certamente. Talvez fosse um correspondente “especial”, realista, inspirado e… apaixonado pela internet, por uma comunicação “global” do Evangelho.

 

Irmã Anna Caiazza.

Superiora Geral das Filhas de São Paulo