As dimensões da comunicação paulina

Ao fundar a Família Paulina, o bem aventurado Padre Tiago Alberione propôs a ela o “método integral”, então compreendido como práticas de piedade. Atualmente o chamamos de espiritualidade integral e até ousamos dizer espiritualidade da comunicação, pois essa definição tem suporte teológico e antropológico. Afinal, Deus é comunicador. Chama todos os seres à existência por sua Palavra comunicadora de vida. Já a pessoa humana é corporeidade animada pela espiritualidade. É chamada a dialogar com Deus, no âmbito pessoal e comunitário. Para isso, Deus submete-se à corporeidade, à espiritualidade e à linguagem humana. Entrou na história e assumiu uma personalidade capaz de ser compreendida. Tornou-se Jesus Mestre, Comunicador, Caminho, Verdade e Vida.

As três dimensões da pessoa são as capacidades de conhecer, amar e decidir. Espiritualidade integral é sintonia e diálogo entre Jesus Mestre e a pessoa que o segue. Jesus comunica a Verdade acerca de si e de seu projeto. A pessoa o acolhe com a inteligência e o conhecimento amoroso. Ele apela a uma resposta. A pessoa responde, tomando decisões: algumas determinantes para a vida, outras pequenas, que permeiam os relacionamentos cotidianos e, assim, entramos livremente no Caminho revelado por ele. Jesus responde, plenificando o coração da pessoa com sua Vida e amor, na graça do Espírito.

A espiritualidade é o dinamismo desse diálogo constante, dessa comunicação que conduz à maturidade humana e à fé, e leva à união sempre mais integral com Jesus Cristo e à comunhão amorosa, reverente e serviçal com todas as criaturas.

O caminho de espiritualidade integral proposto pelo fundador Padre Tiago Alberione é o discipulado paulino. A pessoa é discípula quando procura, acolhe, compreende, ama e realiza o projeto de Deus revelado na Palavra, na comunidade e na vida cotidiana. A adesão de fé e de amor a Jesus Mestre, por meio da Palavra, faz da pessoa uma comunicação viva e presente de Deus. Quem melhor se deixou interpelar e transformar por Deus a esse ponto foi o apóstolo Paulo, cuja vida missionária atribulada, perseguida, incompreendida e caluniada tornou-se Palavra de Deus viva e eficaz para todos os povos, de todos os tempos. Além de Cristo, Paulo é o único personagem do cristianismo cuja vida foi narrada e se tornou Palavra de Deus. A vocação paulina é a herança deste dom que Paulo nos deixou: ser Palavra de Deus no presente, para o ser humano hoje, na cultura da comunicação.

O discipulado integral do bem-aventurado Padre Tiago Alberione é comunicação com Jesus Mestre na Palavra, diante da eucaristia. Cristo ressuscitado e eucarístico é o comunicador silencioso. Após sua “ida” para o Pai, a voz que ressoa no mundo não é mais a dele e, sim, a nossa. Os relatos evangélicos designam os companheiros de Jesus sempre com a palavra “discípulos”. A única vez em que eles são chamados “apóstolos” é na ceia eucarística, quando participaram do mistério da fé: a entrega do corpo e do sangue de Jesus por nós, na cruz e na ressurreição.

O apóstolo Paulo, em atitude eucarística, entregou a própria vida testemunhando e comunicando a morte e a ressurreição do Senhor. Para ele, comunicação é sinônimo de doação de vida. É fazer de si uma eucaristia constante, uma entrega ao amor de Jesus Cristo.

O Reino de Deus, o Novo Céu e a Nova Terra são a plena e completa comunicação de conhecimento, amor e liberdade entre Deus, nós e todas as criaturas. A espiritualidade da comunicação é testemunho do próprio carisma de Deus. A Trindade é comunicação de amor e a criação é comunicação de vida. Se a comunicação é eterna, 100 anos de história são como “um dia” diante da face daquele que nos comunica seu amor e sua vida e nos envia a testemunhar e comunicar no hoje de nossa história.

Por Irmã Maria Inês Carniato, fsp, publicado na revista Paulinas, edição 16.