Tecla, presença inovadora

Uma jovem foi chamada a levar adiante um grupo de mulheres consagradas para evangelizar servindo-se dos meios atuais, inaugurando uma nova forma de vida religiosa.

Pensar em Tecla Merlo, a mãe da Congregação e da Família Paulina, é olhar para uma mulher que acreditou nos tempos da emancipação da mulher e os antecipou, sobretudo, na Igreja. Todos os escritos e testemunhos demonstram a grande fé que animou e sustentou a vida de Teresa Merlo, escolhida pelo Bem-Aventurado Padre Tiago Alberione para ser a primeira mestra das Paulinas e a mãe da congregação, conforme ele mesmo afirma.

Tecla acreditou sem ter visto. Fez a experiência de tantos apóstolos e profetas. Escolhida por Alberione para guiar a Congregação das Filhas de São Paulo e ser a primeira superiora-geral, iniciou sua missão acreditando na palavra do fundador, que a convidou para ajudá-lo a concretizar o carisma da evangelização com a comunicação, tendo a mulher como protagonista. E a palavra “protagonista”, ou seja, ocupar o primeiro lugar, é aqui empregada no sentido positivo, de alguém que sabe tomar a iniciativa, sendo sujeito de processos.

Se olharmos o contexto social, em relação à mulher no final do século 19 e início do século 20, perceberemos que sua função está praticamente reduzida ao espaço privado da casa, como esposa e mãe. (E aqui não vai nenhum juízo de valor sobre a importância dessa missão da mulher, mas quer sinalizar um lugar novo na sociedade). As próprias religiosas atuavam nos conventos, hospitais, escolas e obras assistenciais.

Com a revolução industrial, mudanças culturais acontecem, e passa-se a discutir o papel da mulher na sociedade, bem como o emprego em diversos ambientes, paridade salarial e acesso à cultura. Os movimentos emancipatórios femininos avançam na Europa, nos Estados Unidos e também na Itália. A própria Igreja entra nessa discussão sociológica e cria a Organização Católica Feminina, que se difunde pelas paróquias, com grande resultado e adesão.

Alberione está nesse meio. Participa de congressos, e depois amadurece sua visão sobre a mulher, carregando-a de espírito profético que caracterizará suas fundações femininas. Marcando esse novo lugar, no campo da cultura, no livro A mulher associada ao zelo sacerdotal, ele diz: “A mulher de hoje deve formar o homem de hoje; ir em auxílio das necessidades de hoje, deve servir-se dos meios de hoje”.

É neste contexto histórico (1915) que começa uma congregação onde a mulher se torna protagonista de um novo modo de servir à Igreja e ao povo. A jovem Tecla, que, como catequista, tinha a missão de educar na fé, e em sua vida profissional, um ateliê de costura, muda o rumo de sua vida. Chamada a levar adiante um grupo de mulheres consagradas a Deus, na vida religiosa, para evangelizar servindo-se dos meios atuais, muda radicalmente seu modo de atuar e inaugura uma nova forma de vida religiosa, não mais dedicada ao espaço privado, lançando-se no espaço público. O fato de as irmãs assumirem a redação do jornal La Valsusa, escrevendo, compondo, imprimindo e difundindo-o, até escandalizava as pessoas da época, acostumadas a ver as irmãs nos conventos, educando, cuidando da saúde e rezando.

Essa mudança do lugar da mulher consagrada no exercício de uma missão voltada ao espaço público, o da comunicação, representou, sem dúvida alguma, uma grande mudança cultural também na vida religiosa, que as Irmãs Paulinas foram assumindo gradualmente, inseridas no contexto das grandes mudanças do mundo.

Para Tecla, coube a missão de formar as Filhas de São Paulo no campo espiritual, intelectual e apostólico. “Para iniciá-las no apostolado específico: algo inusitado para aquele tempo e, sob o ponto de vista puramente humano, difícil; no entanto, sob a sua direção, formaram-se as escritoras, as conferencistas, as técnicas, as propagandistas, as especializadas em cinema e rádio” – conforme Alberione no livro Abundantes divitiae, nº 236.

Por Ir. Helena Corazza, fsp, publicado na Revista Paulinas, edição 16